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PRÓLOGO - por Aldous Huxley

Na história da arte, muito raros são os gênios. Mais raros, todavia, os que conseguem reportar e relatar com competência a vida de tais gênios. O mundo teve muitas centenas de poetas e filósofos admiráveis, porém, dentre as centenas, pouquíssimos tiveram a ventura de atrair um Boswell ou um Eckermann.

Quando deixamos o campo da arte para adentrarmos a religião, a escassez de repórteres competentes torna-se ainda mais notável. Da vida cotidiana dos grandes santos e contempladores teocêntricos, na grande maioria dos casos, nós nada sabemos. Muitos, é verdade, registraram suas doutrinas por escrito, e alguns, como Santo Agostinho, Suso e Santa Teresa, legaram-nos autobiografias de imenso valor. Porém todo o texto doutrinário é, em alguma medida, formal e impessoal, ao passo que o autobiógrafo tende a omitir o que julga ser trivialidade, com a desvantagem adicional de se mostrar incapaz de relatar seu impacto sobre outras pessoas e de que forma ele afetou suas vidas.

Ademais, a maior parte dos santos não deixou escritos nem autorretratos, e, para sabermos de sua vida, seu temperamento e seus ensinamentos, somos obrigados a nos fiar nos relatos de seus discípulos, que, na maioria dos casos, provaram ser especialmente incompetentes como repórteres e biógrafos. Daí o especial interesse desta narração incrivelmente detalhada da vida cotidiana e das conversas de Sri Ramakrishna.

“M”, como modestamente o autor se autodenomina, era particularmente qualificado para a tarefa. Ao amor reverente por seu mestre, à profunda e empírica sabedoria dos ensinamentos desse mestre, ele somou sua prodigiosa memória para os pequenos eventos do dia a dia e um ditoso talento para registrá-los de modo interessante e realista. Fazendo bom uso de seus talentos naturais e das circunstâncias em que se encontrava, “M” produziu um livro sem igual, até onde sei, na literatura hagiográfica.

Nenhum outro santo teve um Boswell tão hábil e incansável. Nunca os pequenos eventos de uma vida cotidiana e contemplativa foram descritos com tal riqueza de detalhes íntimos. Jamais as afirmações casuais e espontâneas de um grande mestre religioso foram anotadas tão fiel e minuciosamente. Para os leitores ocidentais, é verdade, essa fidelidade e riqueza de detalhes são, por vezes, algo desconcertantes, já que as referências sociais, religiosas e intelectuais com as quais Sri Ramakrishna pensava e expressava seus sentimentos eram completamente indianas.

No entanto, passadas as primeiras surpresas e perplexidades, começamos a encontrar algo particularmente estimulante e instrutivo na própria estranheza e, aos nossos olhos, na própria excentricidade do homem a nós revelado pela narrativa de “M”. Os “incidentes” da vida de Ramakrishna, como diria um filósofo escolástico, foram intensamente hindus e, portanto, segundo nossa visão ocidental, pouco familiares e difíceis de compreender; sua “essência”, contudo, foi intensamente mística e, portanto, universal.

Ler essas conversas, em que a doutrina mística se alterna com um tipo de humor pouco familiar, em que debates sobre os aspectos mais estranhos da mitologia hindu dão lugar às mais profundas e sutis afirmações sobre a natureza da Realidade Última, é, em si mesma, uma lição de humildade, tolerância e suspensão do julgamento. Temos de agradecer ao tradutor por esta excelente versão de um livro tão curioso e agradável como documento biográfico, tão precioso, ao mesmo tempo, pelo que nos ensina sobre a vida do espírito.

GENRE
Religion & Spirituality
RELEASED
2017
August 24
LANGUAGE
PT
Portuguese
LENGTH
133
Pages
PUBLISHER
Adriano Quadrado
SELLER
Smashwords, Inc.
SIZE
968.8
KB

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