A Relíquia
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Publisher Description
Se os romances anteriores de Eça de Queirós haviam dissecado o clericalismo, a burguesia e o adultério, «A Relíquia» representa uma ousadia maior: uma sátira feroz à própria fé, ao negócio das relíquias e à credulidade de um povo que transforma a religião em comércio e o milagre em espetáculo. É, talvez, o mais irreverente dos seus livros, e por isso mesmo um dos mais radicais.
No centro da narrativa, o jovem Teodorico, órfão de pai e mãe, vive à sombra da tia-avó D. Patrocínio das Neves, beata opulenta e devota, cuja herança cobiça com uma devoção que pouco tem de espiritual. Para a agradar, aceita empreender uma viagem à Terra Santa, com a missão de lhe trazer uma relíquia autêntica – de preferência um pedaço do Santo Sepulcro ou, quem sabe, um espinho da coroa de Cristo. Mas o que Teodorico encontra na Palestina não é a fé que a tia espera: é o deslumbramento da paisagem, o calor da carne, o fascínio das mulheres e, sobretudo, o confronto com uma realidade que desmente todas as imagens piedosas que a devoção portuguesa construiu.
É, porém, no regresso a Lisboa que o romance atinge o seu cume satírico. A relíquia que Teodorico traz – uma coroa de espinhos – desencadeia uma sucessão de episódios grotescos, onde a beataria, a credulidade e a hipocrisia social se revelam na sua nudez mais ridícula. Mas a grande viragem da narrativa reside no famoso sonho de Teodorico, essa visão alucinada e deslumbrante onde o próprio Cristo, num gesto de suprema ironia, desmonta o negócio das relíquias e mostra ao protagonista que a verdadeira fé pouco tem a ver com objectos sagrados ou com cerimónias vazias.
Eça, com a sua prosa de uma elegância cortante, não se limita a ridicularizar a superstição: interroga-se sobre a natureza do sagrado, sobre a distância entre o Cristo histórico e o Cristo das igrejas, sobre a maneira como a Igreja transformou o amor em dogma e a esperança em mercadoria. Há em «A Relíquia» um fundo de amargura que a ironia não consegue dissimular – a percepção de que a fé genuína, se alguma vez existiu, se perdeu no ruído das procissões e no ouro dos altares.
Romance de viagem, romance de formação, romance de desencanto: «A Relíquia» é também o romance em que Eça mais se aproxima do seu próprio ceticismo, da sua visão lúcida e melancólica de um Portugal que trocou a alma por relíquias. A sua irreverência valeu-lhe a condenação da Igreja e o escândalo dos bem-pensantes; mas a sua inteligência, a sua beleza formal e a sua coragem fazem dele uma das obras mais originais e desconcertantes da literatura portuguesa.