Senhora
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- 2,99 €
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Publisher Description
Senhora assinala a definitiva chegada de José de Alencar a um novo universo narrativo: o da sociedade carioca do Segundo Império, com os seus salões, as suas aparências, as suas hipocrisias e as suas ferozes leis de mercado. Publicado em 1875, este romance urbano e psicológico representa o acto de maturidade de um escritor que, depois de ter cantado as florestas e os índios, volve o seu olhar agudo e desencantado para a cidade que se moderniza, para o dinheiro que se torna ídolo e para o casamento que se transforma em transacção comercial.
No centro da narrativa, a figura inesquecível de Aurélia Camargo, órfã pobre que, graças a uma avultada herança, reconquista a sua dignidade e decide comprar, com a mesma impiedade com que se adquire uma mercadoria, o homem que outrora a humilhara: Fernando Seixas, jovem ambicioso mas desprovido de meios, constrangido a ceder ao dinheiro o que negara ao amor. Nasce assim um matrimónio que é, a um tempo, vingança e paradoxo, prisão dourada e campo de batalha, onde o ouro e o sentimento se defrontam num duelo psicológico de rara tensão dramática.
Mas Senhora é muito mais do que um romance de costumes ou uma sátira mundana. É uma reflexão profunda e amarga sobre o poder, sobre a liberdade feminina numa sociedade patriarcal, sobre a mercantilização dos afectos e sobre a solidão de quem, possuindo toda a riqueza material, permanece prisioneiro da sua própria revanche. Alencar, com a sua prosa elegante e cinzelada, orquestrada com a precisão de um dramaturgo e a sensibilidade de um psicólogo, constrói uma arquitectura narrativa em que cada diálogo é um duelo, cada gesto um símbolo, cada silêncio um abismo.
O próprio título — Senhora — encerra a profunda ambiguidade do romance: ser senhora, no Brasil oitocentista, significa simultaneamente possuir e ser possuída, dominar e sucumbir, exercer o poder e suportar-lhe o peso. Aurélia, que se crê senhora absoluta do seu destino, descobrirá que o amor, quando comprado, nunca se deixa verdadeiramente possuir, e que a verdadeira riqueza não reside nos haveres, mas na capacidade de se doar sem cálculo.
Com Senhora, José de Alencar encerra idealmente o seu ciclo narrativo com uma obra-prima que, pela finura psicológica e lucidez crítica, antecipa já o Machado de Assis das grandes obras maduras. É um romance que fala ao nosso presente com extraordinária actualidade: uma implacável investigação sobre o dinheiro, o desejo e as máscaras que vestimos para sobreviver num mundo que transforma até o amor em mercadoria de troca.
Ler Senhora é adentrar o coração de uma sociedade que, sob o brilho da moda e das boas maneiras, esconde feridas antigas e verdades incómodas — e é reconhecer, na luta de Aurélia pela sua dignidade, o eco de uma pergunta que ainda hoje nos interpela: pode-se verdadeiramente comprar o amor? E, se sim, a que preço?