A Mão e a Luva
-
- $3.99
-
- $3.99
Publisher Description
A Mão e a Luva, publicado em 1874, é um dos romances mais bem-acabados da primeira fase de Machado de Assis — e, não raro, um dos mais subestimados pela crítica que insiste em ver no autor apenas o criador de Brás Cubas e de Capitu. Engano dos que não sabem reconhecer, na aparente leveza da trama, o labor paciente de um escritor que já afinava o bisturi da análise psicológica.
A história de Guiomar, moça órfã e ambiciosa, criada sob a tutela de uma tia severa, é o retrato vigoroso de uma alma feminina que não se curva ao destino passivo que a sociedade lhe reserva. Entre os pretendentes que lhe disputam a mão — o prosaico Luís Alves, o romântico Estevão e o leal Jorge —, Guiomar não escolhe por impulso do coração, mas por cálculo refinado de sua própria ascensão. O amor, para ela, é matéria que se pondera, não sentimento que se entrega.
Machado, com sua prosa elegante e irônica, transforma o que poderia ser um mero idílio burguês num tratado sutil sobre as conveniências sociais, o jogo das aparências e a arte de conciliar a mão (o gesto, a ação, o desejo) com a luva (a forma, a etiqueta, o disfarce). O título, longe de ser mera metáfora ornamental, anuncia o tema central da obra: a tensão perene entre o que se é e o que se mostra, entre a nudez do instinto e a armadura dos papéis sociais.
Neste romance, o futuro autor de Dom Casmurro já ensaia suas grandes questões: a volubilidade da vontade, a precariedade da felicidade conjugal e a condição da mulher num mundo que a quer ornamento, e não artífice de seu próprio destino. Guiomar é, assim, uma heroína moderna — não porque triunfa, mas porque ousa escolher com lucidez, ainda que essa lucidez lhe custe a doçura de um afeto verdadeiro.
A Mão e a Luva é, pois, um exercício de mestria narrativa, onde o enredo se desenrola com a precisão de um relógio e os diálogos cintilam com o humor discreto que há de tornar-se marca registrada do autor. Uma obra que antecipa, em chave menor, a grande sinfonia machadiana: a de um mundo regido pelo interesse, onde o amor, quando comparece, vem sempre trajado de conveniência.
Leitura indispensável para quem deseja percorrer, desde as origens, o itinerário de um dos maiores prosadores da língua portuguesa — e para quem suspeita que, nas dobras do romance oitocentista, já se anunciava a modernidade de um olhar desencantado e profundo.